IA•15 de junio, 2026

Botsitting: Funcionários Perdem Mais de 6 Horas por Semana Corrigindo Erros de IA

Uma pesquisa da empresa Glean revelou que profissionais do Reino Unido gastam em média 6,3 horas semanais supervisionando e corrigindo erros de ferramentas de inteligência artificial, consumindo metade do tempo economizado com automação. O fenômeno, chamado de "botsitting", expõe um custo oculto e crescente no uso corporativo da IA.

Botsitting: Funcionários Perdem Mais de 6 Horas por Semana Corrigindo Erros de IA

Botsitting: Funcionários Perdem Mais de 6 Horas por Semana Corrigindo Erros de IA

A promessa da inteligência artificial sempre foi simples e sedutora: automatizar tarefas repetitivas, liberar tempo e aumentar a produtividade. Mas um novo estudo realizado pela empresa americana Glean joga uma luz incômoda sobre a realidade corporativa do uso dessas ferramentas — e os números revelam um paradoxo preocupante. Em vez de apenas se beneficiar da automação, os profissionais estão gastando uma fatia considerável do seu tempo de trabalho supervisionando, validando e corrigindo os erros das próprias ferramentas de IA que deveriam facilitar suas vidas.

De acordo com a pesquisa, divulgada pelo portal TechRadar, funcionários do Reino Unido perdem em média 6,3 horas por semana em atividades de monitoramento e correção de plataformas de inteligência artificial. O dado, por si só, já seria impactante. Mas ele se torna ainda mais revelador quando confrontado com outro número do mesmo estudo: os trabalhadores economizam, em média, 12 horas semanais graças à automação de processos. Ou seja, metade do tempo ganho com IA é imediatamente devolvido à tarefa de cuidar da própria IA.


O Que é "Botsitting" e Por Que Ele Importa

O mercado já tem um nome para esse fenômeno: botsitting. O termo, uma fusão das palavras "bot" e "babysitting" (a prática de tomar conta de crianças), descreve exatamente o que acontece no cotidiano corporativo: profissionais que passam parte significativa do expediente vigiando os sistemas automatizados, garantindo que as respostas geradas sejam precisas, coerentes e utilizáveis.

Longe de ser uma curiosidade semântica, o botsitting representa um custo operacional real e crescente para as empresas. Ele não aparece nos relatórios de eficiência, não é contabilizado nas métricas de ROI de tecnologia e raramente é discutido nas reuniões de liderança — mas está lá, consumindo horas produtivas e redefinindo silenciosamente as funções de milhões de trabalhadores.


Alta Adoção, Baixa Confiança Institucional

Os dados da pesquisa da Glean também revelam um cenário de adoção massiva das ferramentas de IA no ambiente corporativo britânico. Impressionantes 90% dos profissionais do setor de tecnologia no Reino Unido afirmam utilizar inteligência artificial no trabalho — um índice superior ao registrado nos Estados Unidos, onde o número chega a 84%.

Apesar desse alto nível de adoção, apenas 42% das empresas são classificadas pelos próprios funcionários como organizações verdadeiramente focadas em IA. Isso indica que, na prática, o uso das ferramentas ainda é fragmentado, individual e muitas vezes desconectado de uma estratégia corporativa coerente.

Esse descompasso se aprofunda quando analisamos a percepção de impacto:

  • 78% dos entrevistados acreditam que a IA aumenta a produtividade individual
  • Apenas 18% acreditam que ela gera impactos significativos no desempenho geral da organização

A diferença entre esses dois números é gritante e sintomática. Os profissionais sentem os benefícios no próprio trabalho, mas não percebem — ou não confiam — que esse ganho se traduz em resultados reais para o negócio como um todo.


O Custo Oculto: Revisar é Mais Comum do que Criar

Um dos achados mais reveladores do estudo diz respeito à distribuição do tempo que os funcionários dedicam às ferramentas de IA. Historicamente, imaginava-se que o maior esforço estaria na criação dos prompts — os comandos e solicitações iniciais enviados às plataformas. Mas a realidade se inverteu.

Atualmente, os profissionais dedicam:

  • 38% do tempo com IA à revisão e ao controle de qualidade das respostas geradas
  • 36% do tempo à criação de comandos e solicitações iniciais

Em outras palavras, verificar se a IA errou tornou-se a principal atividade relacionada ao uso dessas ferramentas no ambiente corporativo — acima até da própria interação criativa com os sistemas.


Um em Cada Três Usos Falha Completamente

A Glean foi ainda mais direta em seus dados sobre confiabilidade: mais de um terço das sessões realizadas com ferramentas de inteligência artificial falham totalmente. Não se trata de respostas imperfeitas ou que precisam de pequenos ajustes — são falhas completas, que resultam em retrabalho expressivo.

Os impactos práticos dessa instabilidade são sentidos por uma parcela enorme dos trabalhadores:

  • 77% dos profissionais precisaram refazer ou corrigir textos, códigos ou análises gerados por IA no último mês
  • 26% passaram pela mesma situação na última semana

Esses números revelam que o retrabalho causado por falhas de IA não é uma exceção ocasional — é uma experiência rotineira e frequente para a maioria dos usuários corporativos dessas tecnologias.


A Crítica das Métricas de Vaidade

Rebecca Hinds, diretora do Work AI Institute, não tem papas na língua ao analisar como as empresas medem o sucesso de suas iniciativas com inteligência artificial. Segundo ela, a maior parte das corporações avalia a eficiência da tecnologia de forma superficial, recorrendo ao que a especialista chama de "métricas de vaidade": volume de acessos às plataformas, quantidade de comandos enviados, número de usuários ativos.

Essas métricas, embora fáceis de apresentar em slides de reunião executiva, não capturam o trabalho invisível que sustenta — e frequentemente limita — os resultados reais da automação. O esforço de supervisão, validação e correção realizado pelos funcionários simplesmente não aparece nos dashboards de produtividade.

"Os ganhos reais de produtividade corporativa são superestimados devido ao volume de trabalho invisível necessário para mitigar as falhas operacionais dos robôs", afirmou Hinds.

A advertência da especialista é um chamado para que as organizações repensem suas métricas de sucesso e adotem uma visão mais honesta e completa sobre o que significa, de fato, integrar a inteligência artificial ao ambiente de trabalho.


O Que as Empresas Precisam Fazer Diferente

Diante desse cenário, fica claro que o simples ato de adotar ferramentas de IA não é suficiente para garantir ganhos reais de produtividade. As organizações que quiserem colher os benefícios prometidos pela automação inteligente precisarão investir em algumas frentes estratégicas:

  1. Treinamento qualificado dos funcionários para uso mais eficiente das ferramentas de IA, reduzindo falhas por uso inadequado
  2. Seleção criteriosa das plataformas, priorizando soluções com maior confiabilidade e menor taxa de erros
  3. Revisão das métricas de avaliação, incorporando indicadores que capturem o tempo de supervisão e retrabalho
  4. Integração estratégica da IA, alinhando o uso individual das ferramentas com objetivos coletivos e processos organizacionais bem definidos
  5. Gestão do trabalho invisível, reconhecendo e contabilizando o esforço de botsitting como parte do custo operacional da automação

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Os dados da pesquisa da Glean não significam que a inteligência artificial seja inútil ou que as empresas devam abandonar suas iniciativas de automação. Afinal, 12 horas economizadas por semana continuam sendo um ganho expressivo — mesmo que metade desse tempo seja reabsorvida pelo botsitting.

O ponto central é que a adoção acrítica e desestruturada da IA cria uma ilusão de produtividade. As organizações celebram os números de adoção e os relatos individuais de eficiência sem enxergar a conta que está sendo paga nos bastidores, hora a hora, tela por tela.

Para tarefas simples e bem delimitadas — revisão de textos, organização de dados, geração de rascunhos, suporte a pesquisas — a IA continua sendo um aliado poderoso e legítimo. O problema está em tratá-la como uma solução infalível e autônoma, quando na prática ela ainda exige um copiloto humano atento e disponível.

A inteligência artificial chegou para ficar. Mas a maturidade no uso dessas ferramentas ainda está sendo construída — e o primeiro passo é olhar com honestidade para os números que desafiam a narrativa do progresso sem fricção.

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